Hoje: segunda, 18 de dezembro de 2017

Barra do Piraí: o município rural do sul fluminense que virou polo de cinema20 fotos

Público de cerca de 500 pessoas lota auditório durante exibição de filmes realizados apenas por estudantes do ensino fundamental e médio na cidade de Barra do Piraí (RJ) Imagem: Edson Lopes Jr./UOL

Da 18ª fileira de um improvisado cinema ao ar livre, José Francês, um senhor de 66 anos e uma imponente barba grisalha, não tirava os olhos da tela. Apoiado em seu guarda-chuva, não permitia que nada o distraísse dos seis curtas-metragens que foram projetados na noite desta terça-feira (17), durante o 7º Festival Internacional Estudantil de Cinema, na cidade de Barra do Piraí, a 100 km do Rio de Janeiro.

Os olhos de Francês brilhavam a cada cena amadora exibida no telão, instalado no fundo da tenda montada na rua, ao lado da praça Nilo Peçanha. O espaço, que estava lotado, era suficientemente grande para abrigar 500 pessoas sentadas e nem mesmo o barulho dos motores dos carros e ônibus que passavam a menos de 2 m dos assentos, parecia incomodá-lo.

Todos os filmes exibidos no evento foram produzidos por estudantes do ensino médio e fundamental do próprio município fluminense de 96 mil habitantes. Os outros vieram do Irã, Argentina, Rússia e outras cidades do Brasil.

Embora não seja estudante, Francês, que é artista plástico, gosta tanto do festival que já participou como ator ou figurante em 30 dos mais de 100 curta-metragens produzidos pelos adolescentes desde 2009. Naquele ano, o secretário municipal Roberto Monzo criou o projeto Luz, Câmera e Educação, que capacita os próprios professores a ensinar as diversas etapas da produção cinematográfica aos jovens estudantes. Eles aprendem a usar as câmeras, como operar o áudio, noções de enquadramento, direção, atuação, roteiro e sonoplastia.

Edson Lopes Jr./UOL
Antiga estação ferroviária de Barra do Piraí, que serve de cenário para filmagens

Festival quixotesco

Há quase 15 anos, desde quando o último cinema de rua fechou as portas, o município não possuía nenhuma sala de projeção. Nesse período, era comum encontrar jovens que nunca tinham ido ao cinema.

Mas a criação do festival e também de uma "film comission" - órgão de governo que se dispõe a facilitar a  vida de cineastas que decidam usar a cidade como locação - mudou esse cenário. Barra do Piraí tornou-se o Polo Audiovisual de Barra do Piraí, com a gravação de alguns longas-metragens na cidade, e em 2012, atraiu o interesse de uma rede da região sul-fluminense que percebeu a oportunidade e abriu duas salas, cada uma com capacidade para 200 pessoas. Nesta semana, o espaço exibia os longas "Angry Birds 3D", "O Caçador e a Rainha do Gelo" e "Capitão América: Guerra Civil", todos dublados.

A batalha quixotesca de Roberto Monzo para ensinar a sétima arte aos estudantes inspirou, inclusive, o design do troféu do festival, chamado informalmente de o "Oscar do cinema estudantil". "Escolhemos o Dom Quixote para o troféu porque, assim como o personagem de Cervantes, tivemos um sonho e com bravura e coragem fomos em frente", explica o secretário.

OLYMPIA 18 05 16