Hoje: segunda, 18 de dezembro de 2017

Cinema Olympia, em Belém: mais antigo em atividade10 fotos

Fachada atual do Cinema Olympia, em Belém do Pará Imagem: Reprodução/Facebook Cinema Olympia

Cerca de dez pessoas assistiam à projeção em DVD de "O Anjo Azul", clássico em preto e branco de Josef von Sternberg, na sala de 434 lugares do Cinema Olympia, em Belém do Pará, o mais antigo do país em funcionamento. Na entrada, o vigia travava a porta com o cassetete, para garantir a segurança. O DVD travava algumas vezes, mas o magnetismo de Lola (interpretada por Marlene Dietrich, a protagonista) parecia ultrapassar barreiras de tempo, desgaste cultural e precariedade técnica.

Assim como "O Anjo Azul", o Cinema Olympia encara uma nova batalha para continuar sua trajetória de resistência e significado. No ano passado, a Fumbel (Fundação Cultural de Belém), ligada à prefeitura, fez uma proposta de restauração ao Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional) que compreendia reformas externa e interna e a compra de som e projetores digitais. Foi aprovada. Em fevereiro deste ano, foi assinada a liberação de uma verba de R$ 166 mil para a contratação de uma empresa (Ramos & Aguirre) que dará início a sua reforma e restauração, mas a crise econômica colocou tudo em compasso de espera.

Firme e forte

Não é fácil derrotar o Cinema Olympia: contornou o final do cinema mudo, a concorrência faraônica, a chegada dos multiplex, o assédio imobiliário. Ali perto, na Avenida Presidente Vargas, o Cine Palácio, outro patrimônio paraense, de 1959, três vezes maior que o Olympia e que já foi seu maior rival, agora abriga uma igreja evangélica.

Reprodução/Facebook Cinema Olympia
24.abril.1912 - Festa no dia da inauguração do Cinema Olympia

O Cinema Olympia --assim como outros 60 com o mesmo nome que existiram no país-- inspirou-se nas salas francesas. O espectador entra no recinto por baixo da tela, ao lado da orquestra que tocava até os anos 1930. A sala de espera era ornamentada com mármore de Carrara e lustres de cristal. Mas sua face hoje é bem diferente do que era em 24 de abril de 1912, quando foi inaugurado.

O local formava um conjunto de edificações glamourosas no centro de Belém, ao lado do Teatro da Paz, e foi construído como joia de um corredor cultural --para deleite dos hóspedes do Grande Hotel, o único desses prédios que foi demolido. Era costume do público lanchar no teatro do Grande Hotel após as sessões de cinema. Era uma das raras ocasiões em que as cortesãs da época, chamadas de "polacas" se misturavam aos frequentadores.

A primeira mudança foi a troca do neoclássico da belle époque pelo art déco, nos anos 1940 --na década anterior, o filme mudo tinha saído de cena e a sala ganhara o sistema movietone, com o som gravado na película. Nos anos 1950, comprado pelo grupo Severiano Ribeiro, a sala ganhou tela panorâmica e cinemascope.

E nos anos 1960, nova reforma: trocaram as poltronas da sala, as tapeçarias e instalou-se ar-condicionado. Esquecido nos anos 1970 e 1980, o Olympia fechou por um período no ano 2000 e virou alvo de lojas de departamentos, que queriam o prédio para expandir seus negócios. Houve piquete na porta do cinema. Quando foi anunciada sua última sessão (o filme "Syriana", com George Clooney), em 2005, todos foram para o cinema e o prefeito apareceu. "O Olympia não fecha", sentenciou.

OLYMPIA 18 05 16