Hoje: segunda, 18 de dezembro de 2017

Ariane e Geraldo já tinham três filhos biológicos quando decidiram que era hora de realizar um velho sonho: adotar

 

Geraldo e Ariane possuem 16 filhos, 3 biológicos e 13 adotados
Arquivo pessoal
Geraldo e Ariane possuem 16 filhos, 3 biológicos e 13 adotados

Existem mais de 35.500 brasileiros aguardando para adotar um filho no Cadastro Nacional de Adoção (CNA), número cinco vezes maior do que as, aproximadamente, 6.550 crianças à espera de um novo lar.

Apesar do cenário se apresentar positivo para os órfãos, a realidade é que os abrigos continuam lotados por causa das exigências feitas pelos pretendentes a pais e mães. O número de possíveis pais que só aceitam crianças brancas, por exemplo, é quase quatro vezes maior do que as disponíveis com essa característica. Outros pontos que dificultam a adoção são o sexo (a preferência é por meninas), a idade (máximo 7 anos), o número de crianças por casa (por lei, é proibido separar irmãos) e, ainda, restrições a deficiências e problemas de saúde. 

Na contramão disso tudo está Ariane Arrivabene, que uniu o sonho de ter uma família grande à vontade de ajudar quem precisa e considerou a adoção maior do que qualquer dificuldade que pudesse encontrar ao trilhar esse caminho. Ela e o marido, Geraldo, ficaram três anos na lista de espera. Hoje, nove anos após decidirem pela adoção, eles se enchem de orgulho da família enorme que formaram: são 18 pessoas - o casal, os três filhos biológicos e os treze adotados. 

Família quase completa de Geraldo e Ariane
Arquivo pessoal
Família quase completa de Geraldo e Ariane

"Casei com 18 anos e fui cuidar da minha vida, mas o sentimento de querer adotar sempre me acompanhou. Só quando tinha 43 anos tomei a decisão de realizar esse sonho. A sensação de ser chamada na lista de adoção é igual a dar à luz, ao nascimento de uma criança, mas mais intenso porque não demora os 9 meses de uma gravidez; quando você é chamada, a criança vem logo depois", conta Ariane, que já tinha três filhos biológicos. 

Adoção, autismo - e uma vontade ainda maior de adotar

Clara foi adotada quando tinha 2 anos
Arquivo pessoal
Clara foi adotada quando tinha 2 anos

A primeira adoção foi de duas irmãs, Ana Paula, de 7 anos, e Clara, de 2 anos, que havia sido diagnosticada com autismo. "A Ana nunca tinha ido à escola, a Clara não falava e não andava. A gente a estimulava muito e, quando ela dava alguns sinais, era igual quando o filho fala a primeira palavra. Aí, ela começou a andar e caía muito no início, mas tinha que cair porque uma hora ia aprender", lembra.

Hoje, as duas sabem ler e escrever e a Clara está começando a ajudar nas tarefas de casa também. "Foi tudo muito difícil, mas as descobertas com elas foram incríveis e a adaptação com o Daniel (filho biológico do casal) foi bem tranquila, Então, o ânimo de continuar adotando permaneceu", lembra Ariane. 

Abandono 

Nove meses após a chegada das irmãs, mais seis irmãos chegaram. O mais velho tinha 14 anos e a mais nova, a Mariana, 3 meses. "Ela era muito magrinha e adoecia sempre, era muito difícil. A adaptação deles foi bem mais complicada, o abandono dos pais foi um período muito difícil para os adolescentes e, até hoje, eles são bem mais reservados que os outros", conta a mãe. 

“ É muito triste a vida de uma criança abandonada, ela tem pouca chance. Creio que muitos não estariam vivos se não estivessem aqui hoje"

Mais quatro meses e o casal recebeu mais quatro irmãos em casa. O mais velho com 12 anos, o mais novo com 8 anos. Entre eles, uma menina com atraso mental. E o mais novo integrante da família está lá há apenas um ano. Matheus chegou aos 18 anos; autista, ele vivia sob os cuidados de um projeto de caridade de uma igreja e, quando completou a maioridade, teria que deixar o local - e o casal, que o conhecia desde os 7 anos, não permitiu que isso acontecesse. 

No sítio eles criam animais para ajudar no sustento. As crianças ajudam em todas as tarefas
Arquivo pessoal
No sítio eles criam animais para ajudar no sustento. As crianças ajudam em todas as tarefas

Dia a dia

A família vive em um sítio localizado nas montanhas capixabas*. Para garantir o sustento de todos, eles plantam e criam animais. Além disso, eles contam com doações mensais de carne e arroz. Nunca falta nada e, quando existe alguma sobra, eles ainda ajudam os vizinhos que passam dificuldades. Todos frequentam a escola e estudam diariamente e, quando possível, ajudam nas tarefas de casa. 

"Nos finais de semana, eles também dão comida para os animais, ajudam a molhar a horta... Durante a semana, eles vão todos os dias para a escola, hoje um transporte vem pegá-los, mas chegamos a comprar uma van escolar para a família", explica Ariane. 

Conquistas e recompensas

"Os filhos adotivos são iguais aos filhos biológicos. É muito gratificante vê-los crescendo, lembrar de como eles chegaram aqui e ver como eles estão agora. Todos eram analfabetos e, hoje, sabem ler e escrever, se preocupam com os estudos, são ricos de valores e possuem suas responsabilidades", analisa.

"É muito triste a vida de uma criança abandonada, ela tem pouca chance. Creio que muitos não estariam vivos se não estivessem aqui hoje. No início, tudo isso dava muito medo, mas a gente tem que ter coragem e pensar no quão gratificante é", finaliza Ariane. 

*A pedido da mãe, a localização exata do sítio foi ocultada para preservar a rotina familiar

 

36 mil pais 17 05 16